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id da página: 7850 Agostinho Sermão 121 Páscoa Agostinho

Agostinho Sermão 121 Páscoa

Agostinho de Hipona — SOBRE O PRIMEIRO DIA DA SANTÍSSIMA PÁSCOA


1. Ora pois, Cristo «estava no mundo e o mundo foi feito por Ele e o mundo não O conheceu» (Jo 1,10). Qual é o mundo que foi feito por Ele? Qual o mundo que O não conheceu? Pois o mundo que foi feito por Ele não é esse o mundo que O não conheceu. Qual é o mundo que foi feito por Ele? O céu e a terra. Como é que o céu O não conheceu, se na sua Paixão o sol se escureceu? Como é que a terra O não conheceu, se ao vê-Lo pendurado na cruz estremeceu? (Mt 27, 51). O mundo que O não conheceu é o que tem por príncipe aquele de quem foi dito: Eis, aí vem o príncipe deste mundo, mas não encontra nada em mim (Jo 14, 30). Os homens maus é que se chamam mundo, os infiéis é que se chamam mundo. Tomaram o nome do que amam. Amando a Deus, fazemo-nos deuses; amando o mundo, fazemo-nos mundo. Mas Deus estava em Cristo reconciliando o mundo a si (II Cor 5, 19). Portanto, «o mundo não O conheceu», pode acaso entender-se de todos?1

2. «Veio a sua casa e os seus não O receberam (Jo 1, 11). A sua casa... In sua... Tudo é d'Ele; mas o próprio d'Ele, a sua casa, a sua família, era aquela donde era sua Mãe, donde recebera a vida corporal, o povo a quem antes de chegar mandara os pregoeiros da sua vinda, a quem tinha dado a lei, a quem libertara da servidão do Egipto, para quem escolhera Abraão como pai segundo a carne. Porque falou verdade quando disse «antes de Abraão, Eu sou» (Jo 8, 58). Não disse: antes que Abraão fosse, Eu sou; ou: antes de Abraão ter sido, Eu fui fuito; ou: antes que Abraão tenha sido, Eu sou2 . Pois, no princípio era o Verbo, e não «tinha sido feito o Verbo». Portanto, veio à sua própria casa e família e os seus não O receberam.

3. Mas a todos os que O receberam ... (Jo 1,12). É evidente que neste número estavam os Apóstolos, os quais O receberam; neste número estavam aqueles que à frente do jumento em que ia montado levavam ramos, os que iam diante e os que iam de trás e atapetavam com seus mantos o caminho e bradavam com grande voz: «Hossana, oh! Filho de David, bendito O que vem em nome do Senhor!» (Mt 21, 9). Disseram então para Ele os fariseus: Manda calar estes garotos, para Te não aclamarem assim. E Ele: — Se estes se calarem, gritarão as pedras (Lc 19, 40). Tinha os olhos em nós quando dizia: se estes se calarem, gritarão as pedras.

Que pedras são estas, senão os que adoram pedras? Se os meninos judeus se calarem, hão de clamar grandes e pequenos entre os gentios. Que pedras são estas senão aqueles de que fala João, o que veio para dar testemunho da luz? Ao ver ele os judeus ensoberbecidos da sua descendência de Abraão, invectiva-os chamando-lhes «Raça de víboras!» (Lc 3, 7). Eles blasonavam de filhos de Abraão, ele apodava-os de raça de víboras. Tão atrevido que insultasse Abraão? Nunca. Dava-lhes o nome da vida que faziam, pois se fossem filhos de Abraão imitariam as virtudes de Abraão.

É isto exatamente o que Ele próprio lhes responde quando eles replicam: Nós somos livres, nunca fomos escravos de ninguém: o nosso pai é Abraão. Então Ele: «Se vós fósseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Vós quereis tirar-Me a vida, porque vos digo a verdade; tal coisa Abraão não a fez» (Jo 8, 33-40). Dele é que sois gerados, mas sois degenerados.

E que é que diz João? Raça de víboras, quem é que vos ensinou a fugir da ira que aí vem? Isto porque se vinham baptizar com o batismo de João para penitência. «Quem é que vos ensinou a fugir da ira que aí vem? Fazei, pois, dignos frutos de penitência e não digais em vossos corações: Nosso pai é Abraão. Tem Deus poder para destas pedras suscitar filhos de Abraão» (Lc 3, 7-8). Deus tem poder para destas pedras..., destas pedras que via em espírito; para eles falava, mas ao longe para nós é que olhava. Deus tem poder para destas pedras fazer filhos de Abraão, destas pedras de que foi dito: Se estes se calarem, gritarão as pedras.

Acabastes de ouvir e clamastes3 . Cumpriu-se a profecia: «clamarão as pedras». Efetivamente nós vimos dos gentios. Em nossos pais adoramos pedras, por isso nos chamaram cães4 . Não estais esquecidos do que aquela mulher que bradava atrás do Senhor ouviu por ser cananeia, adoradora de ídolos e escrava de demônios. Que é que disse Jesus? «Não é bom tomar o pão dos filhos e atirá-lo a cães» (Mt 15, 26). Nunca reparastes como os cães lambem as pedras untadas (de libações)?5 Tais são todos os adoradores de ídolos. Mas veio para vós a graça. «A todos aqueles que O receberam, deu-Lhes o poder de se fazerem filhos de Deus» (Jo 1,12). Tendes diante de vós homens recém-nascidos6 . Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. A quem é que o deu? Aos que acreditaram no seu nome.

4. E como se tornam filhos de Deus? «Nascendo não do sangue, nem da vontade do varão, nem da vontade da carne, mas de Deus» (Jo 1,13). Reparai bem: Estes homens nasceram de Deus, depois de recebido o poder de se fazerem filhos de Deus. Nasceram de Deus, não nasceram do sangue.

Qual é o primeiro nascimento? Qual é o desgraçado nascimento que nos vem de desgraçados? Mas aqueles que nasceram de Deus donde é que tinham nascido primeiro? De uma mistura de sangues, do sangue de um homem e do sangue de uma mulher, da união corporal do homem e da mulher, daqui tinham nascido.

E agora donde é que nasceram de Deus?

O primeiro nascimento origina-se de um homem e de uma mulher, o segundo nascimento origina-se de Deus e da Igreja.

5. Eis aí: nasceram de Deus. Como se fez que nascessem de Deus os que primeiro nasceram de homens? Como se fez que habitasse entre nós? (,1o 1, 14).

Estupenda mudança! Ele fez-Se carne, estes fizeram-se espírito. Que quer isto dizer? Que dignação tão grande, meu irmãos! Levantai os vossos corações à esperança e à posse de coisas melhores. Não vos entregueis às concupiscências do século. Fostes comprados por bom preço (1 Cor 6, 20). Por causa de vós é que o Verbo Se fez carne, por causa de vós é que O que era Filho de Deus Se fez filho do homem, para que vós que éreis filhos de homens fósseis feitos filhos de Deus.

Que era Ele? Que Se fez Ele?

E vós que éreis? Que é que vos tornastes?

Ele era Filho de Deus, e fez-Se filho do homem. Vós éreis filhos de homens e fostes feitos filhos de Deus. Veio participar connosco dos nossos males para nos dar a nós os seus bens. Mas Ele no próprio ato com que Se fez filho do homem é distinto de nós. Nós somos filhos do homem por concupiscência da carne. Ele é filho do homem pela fidelidade da Virgem. A mãe de qualquer ser humano, para conceber, precisa de um homem. Cada homem necessita de dois seres humanos para nascer: de um homem que seja seu pai, de uma mulher que seja sua mãe. Cristo nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria. Aproximou-Se de nós, mas não Se afastou muito de Si. Antes, enquanto é Deus, nunca Se afastou de Si, mas à nossa natureza acrescentou o que era. Realmente, acrescentou a Si o que não era e não perdeu o que era, fez-Se filho do homem, mas não deixou de ser filho de Deus.

Por isso é que Ele é mediador: está no meio. Que quer dizer no meio? Nem para cima nem para baixo. Como nem em cima nem em baixo? Não em cima, porque é carne; não em baixo, porque não é pecador, contudo em quanto Deus sempre em cima. É que Ele não vem a nós deixando seu Pai; partiu de entre nós; partiu mas não nos abandonou; há de vir a nós mas sem Se separar d'Ele.


NOTAS:

1 «Os seus não O receberam ... e contudo receberam-n'O os seus. O mundo não acreditou e contudo todo o mundo acreditou. É como quando dizemos: a árvore está cheia de folhas. Quer isto dizer que não há lugar para os frutos? Pode-se dizer uma e outra coisa: a árvore está cheia de folhas e: a árvore está cheia de frutos» (S 342, 4).
2 A exegese deste passo encontra-se no Tractatus in Jo. Eu. 43, 17. Agostinho rejeita as traduções «antes que Abraão fosse, antes que Abraão tivesse sido», pois isso seria conceder a Abraão o ser, que é apanágio exclusivo de Deus e, por conseguinte, de Cristo. Pelo contrário «antes de Abraão» há-de se entender «antes de Abraão ser criado».
3 Interrupção do auditório que deve ter lançado uma exclamação: Deo gratias! Deo laudes! (Graças a Deus! Louvores a Deus!). Os fiéis de Hipona estavam longe de ser passivos. O pregador menciona muitas vezes as suas reações. «... E qual é esta recompensa? A vida eterna. Mal ouvistes esta palavra, gritastes de alegria...» (In Jo. Ep. 3, 11). Quando a manifestação mira só a eloquência, o pregador agradece por urbanidade, mas repreende os ouvintes: «Ouvistes e louvastes, Deo gratias. Recebestes a semente e produzistes palavras. Os vossos louvores antes me são gravosos e constituem para mim um perigo. Tolero-os, mas inquietam-me. Aliás, irmãos, os vossos louvores são as folhas da árvore; espero os frutos» (tratava-se de uma colecta para os pobres. S 61, 13). Cf. ainda S 311, 4. Mas a interrupção manifesta muita vez real consonância entre o coração do pastor e os fiéis: «Durante a leitura do Evangelho, quando Jesus disse «Desce, Zaqueu, que tenho de ficar hoje em tua casa», ouvi um murmúrio de alegria (gemitus gratulationis vestrae), como se todos vós estivésseis em casa de Zaqueu e vós recebêsseis a Cristo.» (S 25, 8). Outras vezes a intervenção dos fiéis revela que eles sabem as Escrituras, como nota o taquígrafo: «... Enfim, são do Senhor as saídas da morte. Neste salmo é que está escrito (aqui aclamações dos que sabem o salmo): Pertencem ao Senhor as saídas da morte» (S 19, 4). M. Pontet (L'exégèse de Saint Augustin prédicateur, Paris, 1944) reuniu outros textos (pp. 43-44) sobre o mesmo assunto.
4 É o apodo que os judeus davam aos pagãos.
5 «Eu venerava outrora, que cegueira!, estátuas mal saídas da oficina, deuses fabricados sobre a bigorna a golpes de martelo e, quando as encontrava, ínfulas bordadas penduradas das árvores centenárias: inclinava-me, como se nela residisse alguma força, ante a pedra luzidia, repugnante do azeite da unção, falava-lhe e pedia graças a esse calhau perfeitamente insensível» (Arnóbio, Adversus gentes I, 39).
6 Os batizados da noite precedente. Efetivamente acabam de nascer «de Deus e da Igreja»; durante oito dias serão chamados os recém-nascidos, infantes.